Bruna Sofistinha

conto 02

Glorinha, na flor da sua juventude, pega a quantidade exata de creme com a destreza de quem faz de hábito. Pode repetir o ritual decidindo em que ordem fazer todas que a ela planejou para o dia, mas dependendo da fase da lua, signo e todas as baboseiras astrológicas Glorinha consegue se concentrar e lembrar que com carinho o suficiente cada célula do seu corpo pode sentir prazer, passa o creme reconhecendo seu corpo como seu.

Visita cada dedo, um por um, com as duas mãos — como é bom ter tempo. Reconhece sua panturrilha e se orgulha de ter corrido a meia maratona nos últimos anos. Visita as coxas e, quando se encanta com a idade, pressiona o dedo com mais força para ver se a pele ainda fica vermelha como quando se fez conhecida pela primeira vez. Sempre achou um pouco obsceno ficar com a pele tão marcada de vermelho, incluindo seu sexo, um vermelho-romã em contraste com a pele branca. Sempre teve vergonha de ficar nua. Até hoje não fica à vontade com ninguém (ou quase) e esconde de si mesma o prazer obsceno de ser flagrada.

Visita parte da juventude sorrindo enquanto continua pelo corpo e, no íntimo, sente o que nunca teve coragem de confessar para ninguém.

O prazer de Glorinha, o inadmissível prazer de Glorinha não se bastava em ser o morango maduro da cesta de frutas. O prazer vai para muito além dos atalhos da beleza e ele vai se esconder lá perto do nirvana

Repetindo todos os dias: hidratar e depilar todos os pelos do corpo, comer macrobiótica fielmente(ou até dar vontade de comer um japonês), contabilizando os litros de água, chás orgânico funcionais. E para justificar o Sushi sempre conta para si que até os padre medievais no seus votos, algumas vezes por ano se deleitavem em provar a cerveja que faziam para vender e manter o mosteiro. O Ioga do auto-cuidado, e o cuidado de manter as lipideos nos lugares corretos.

Mas Glorinha se imagina algo mais, para mais além de ser só gostosa. Mas ela sê về nesse momento muito mais do aquelas crianças indígenas. que pra ser homem precisa enfiar a mão no formigueiro pra provar. Mesmo admirada, ela se sente mais do que menina. Graças a Deus a coragem não é o valor do meu tempo, nasci na época certa, pensa ela com o prazer de nunca precisar ter morado na floresta.

Para seu tempo, sua espécie Glorinha já se provou mulher, já passou das formigas e se vê como aquelas belas mulheres africanas que colocam as argolas ao redor do pescoço, quanto mais argola mais gostosa, e vem o sentimento de ser a argoluda do seu tempo. Mas quando a lua está lá oposta ao sol, Glorinha goza imaginando que suas curvas são mais místicas que o beiço do pajé, mais do que toda vida de sabedoria daquele santo homem, nesse nosso tempo não é páreo para sua bela bunda.

Glorinha (quase?) goza no seu íntimo, com o impressionante beiço do pajé e sua própria bunda.