Veda Vitão

Curioso

Pelo viés de Freud, ou como o vejo, ele relaciona vida ao desejo. Numa forma muito resumida: Desejo, logo, existo. Forte, não? A existência baseia-se no desejo. Por um lado, bem diferente da leitura atual, aliás, mas nunca saberemos se Freud concordaria que: Essa também é uma visão naturalmente religiosa.

Porque se pensarmos no contraponto, um ser que deixou de desejar, ele deixa de existir. Que é um ideal religioso de se retirar do mundo, ir para cavernas, mosteiros... Conseguir não dar ouvidos ao desejo até a comunhão divina faz os desejos mundanos parecerem uma piada. Fim. Iluminou-se.

Ao mesmo tempo que tem essa beleza, tem também um lado maniqueísta. Bom e mau, céu e inferno.

Mas se tirarmos o maniqueísmo, qual a melhor forma de expressar o desejo? (É difícil fazer drama num texto sem utilizar os artifícios espaciais de dar vários enters). Mas a melhor forma de expressar isso é com a curiosidade. Que pode ser vista como uma forma de desejo — no desejo de conhecer —, porém, também não. Se olharmos bem, existem espectros unindo os dois, mas há também locais bem separados de existência.

Observar ao redor nos faz curiosos sem necessariamente ter desejos. Que é onde entra o conceito de contemplação, que reside junto da curiosidade.

Eu posso contemplar tantas coisas na vida sem desejar. Observar formigas trabalhando, as Heliconias nascendo em janeiro. Posso tocar repetidamente no violão várias músicas pelo prazer de tocar. Sem desejo de ser visto, ouvido, percebido. Somente tocar, pela curiosidade de "se eu fizer assim, fica melhor". Parece um desejo, com a diferença de que não há o que ser alcançado e nem perdas.

A curiosidade é a chave que abre a vitalidade sem a deturpação do desejo. Como meditar. É pensar e não pensar. É intencionar sem desejo. É uma postura para com a vida, é necessário fazer algo, é necessário ocupar o tempo, logo... qualquer coisa que estiver ao meu redor.

Na vida, há duas chaves e juntas elas abrem todas as portas: Essa é uma, a curiosidade. Ela te leva à próxima, ela te movimenta no único sentido real, para a verdadeira chave que abre todo o resto. Qual chave é essa?