Veda Vitão
Corredores em silêncio
Eu gosto de sofrer. Pelo menos eu acho que gosto. Não aquele sofrimento azedo e sem graça de correr atrás de alguém que não me quer, acreditar que trabalhando vou ficar rico, acreditar que o pedreiro vai entregar no prazo ou que o chefe vai valorizar o meu trabalho. Na verdade, nem aceito isso como sofrimento; isso é somente ignorância da mais baixa classe. Quando eu falo que gosto de sofrer, estou dizendo que, no lugar de passar a vida fugindo de mim, procurando diversões, amigos, festas, eu decidi sentar e aceitar que a vida é o sofrimento.
Sim, eu sei, isso pode parecer um absurdo. Hoje tá fácil pegar o dinheiro e ir para a Tailândia, fumar maconha e conhecer um monte de gente; tá fácil sair à noite, fingir ser descolado e ter sexo amargo; milhões de horas disponíveis no streaming, games. Eu sei. Mas assim, imagina passar a vida inteira, inteirinha, precisando disso. Sem conseguir solitariamente sentar, relaxar e existir. Imagina estar confortável e não ser produtivo, em não estar disponível, olhando realisticamente para o que substâncias fazem conosco e entendendo que decisões tomadas sob esses efeitos nunca trarão satisfação; no dia seguinte sempre será um arrependimento.
Talvez eu tenha mesmo decidido ser sincero. Cortar o romantismo do olhar. Simples, cru e direto: eu não aprendi a usar meu corpo, minha mente, meus sentimentos. Não aprendi. Ou seja, estou sentado no cockpit de um avião voando. Fim.
Sim, eu poderia acabar aqui, mas se você está lá em pleno voo, você vai precisar ler os botões e tentar entender esse manual. Qual o resultado? Você precisa gostar de sofrer, você precisa pegar o gosto de olhar que o avião está caindo, vamos morrer.
Sim, eu gosto de rir, sim, eu acho as flores lindas e o jardim em casa. E não só as flores, o mundo e a existência são lindos. Tudo bem, mas, mesmo existindo manga e uva brotando do nada, mesmo com arco-íris, aviões, mulheres, mesmo com tudo isso à disposição, eu reconheço o prazer de tudo isso. Mesmo assim eu não consigo ver outra alternativa além de existir, mas, em vez de achar que coisas me farão feliz, eu vou sofrer até encontrar paz.