Veda Vitão
Desembriagai-nos sem tréguas
Pensando em você me lembrei desses 3 versos do Yoga Sutras que estão de alguma maneira chicletados na minha mente, mesmo sem ler faz tempo. Estou traduzindo de forma bem livre usando a Gloria Arieira e Swami Vivekananda como consulta
yogaścittavṛttinirodhaḥ॥2॥ tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam॥3॥ vṛttisārūpyamitaratra॥4॥
Yoga é cessar das modificações da mente ॥2॥ Neste caso, observador se torna a sua própria natureza. ॥3॥ Caso contrário o observador essas modificações ॥4॥
O que ele está dizendo é muito lindo. Nós somos nós mesmos somente na tranquilidade, no assentamento, na certeza. Caso contrário nós tornamos outra coisa, que não nós mesmos. Mas o pulo do gato é que substâncias flutuam na mente, e ao consumir substâncias nós tornamos as substâncias. Mas também o desejo, o medo, a dúvida.
Substâncias são úteis para tirar nossa mente de Tama Guna, para tirar nossa mente de um estado calcificado sem contraste de que existe outra natureza além da minha, pra jogar luz e mostrar que existe um objeto de comparação. Por isso sagrado, intermediado por um mestre e acessível em um chamado.
Se diz que viver com o Guru é uma coisa muito perigosa, ficar contemplando o lado relativo, o lado mundano onde ele tem gostos, manias, visões de mundo, senso de humor perigoso, você às vezes acaba considerando ele alguém como você. O mesmo perigo de contemplar sempre esse sagrado, sempre estar nos expondo a uma grande grau de contraste artificial, acabamos acostumando, achando que o sagrado sou eu. A ferramenta deixa de ser ferramenta e se torna doença, se torna dependência, se torna hábito.
Matamos o sagrado. Cortamos o sagrado. Embalamos os sagrado e vendemos em pacotinhos de 100 gramas no supermercado mais próximo da sua casa. Estamos jantando o sagrado com ketchup, cacau, putaria e auto-apreciação. Acompanhado do mind-shake de eu sou LUZ, eu sou parte de um todo, eu sou um ser humano fantástico e espiritualizado. E batatinha frita.
Se existe algo realmente espiritualizante é o silêncio, o jejum, a pausa. Se existe outra coisa espiritualizante é reconhecer que somos um saco de osso excremento e sangue. Somos macacos sem rabo, animais selvagens, sem civilidade, sem controle do próprio corpo. E reconhecendo a nossa própria posição do fundo do poço buscar ajuda genuína. Ajuda de quem está em silêncio, em jejum, em pausa a muito tempo Se existe outra coisa espiritualizante é glorificar aqueles que jejuam, que são a pausa do mundo. Aquele pesado que não se move, que não sai nem um nanômetro para fora da tranquilidade. Aquele estável
Se existe algo que nos tira a fé e nos afasta do sagrado é achar que somos as modificações da mente. É fazer só o que dá prazer. É a intoxicação de vinho de poesia e de virtude.
Espiritualizado é o membro justo da família. Espiritualizado é ser responsável, ser confiável é ser a segurança.
Desembriagai-nos sem tréguas! De vinho, de poesia e de virtudes.