Veda Vitão
O processo
Se você se observa por tempo suficiente com atenção suficiente, um fenômeno acontece: Você, com o tempo, consegue entender um pouco o que está acontecendo. E com um pouco mais de tempo, você começa a perceber que praticamente todo mundo tem o mesmo sistema. O ser humano é uma espécie. Uma espécie adaptada a um ecossistema que chamamos de cultura. Dar nome às coisas é uma coisa complicada. Mas voltando, nosso ecossistema dita a linha pela qual todos orbitamos. Essa órbita serve como um contraste, um objeto de comparação. E um objeto de comparação, uma bússola.
Aí, depois de ficar se olhando por um tempão e olhando os outros, você chega a um dilema: Quão sincero eu estou sendo comigo mesmo? Um sistema que esperávamos que fosse idôneo, não é; é absolutamente tendencioso, mas, curiosamente, ele não é tendencioso de forma "racional", mas de forma "cômoda". O sistema vai se acomodando. Aí veio o brilho: Adquirir informações para tomar uma decisão consciente e estar atento para tomar essa decisão na hora correta gasta muita energia, dá muito trabalho. E estudar, nem estou falando de saber matemática, decorar versos, ler livros. Estudar a realidade ao redor, o que está acontecendo de fato.
Bem, até agora temos um "o que está no alto é como o que está embaixo": Nossa relação com a consciência, essa relação "alta", é exatamente a mesma que eu observo aqui embaixo, nas outras pessoas. A minha consciência é igual à matéria, ou seja, se o ecossistema me insere valores e eu os aceito, não existe diferença entre minha consciência e a matéria, minha mente se moldou à matéria. "eu que me achava tão inteligente" — eu para mim (seja lá o que isso signifique).
Mas por mais que adicionemos filosofia, "e a sinceridade, meu chapa", que ainda coça a consciência. Porque agora que você vê, você pode lidar com o viés, e você chega à segunda conclusão iluminada: Se entender já gasta energia, e lutar? Putaqueupariu, não basta meditar, pensar, refletir, receber bênção de um guru. Você precisa ir para a guerra. Agora eu quero? Quanto eu escondo isso de mim?
Vamos colocar em caixas: Existem vieses de vaidade, de fetiches, biológicos... Mas existe um viés inominável. Como você vai dar nome para isso? Mesmo que a lenda diga para dar nome ao demônio, você entende, você sabe a realidade. Mas você quer?
Sempre caio neste lugar, neste limbo. Onde você questiona nossa própria honestidade. Sempre soubemos deste limbo, deste lugar onde morrem sonhos? Este lugar de fé e esperança dignos de um anticristo. Um buraco negro de existência onde repousa o sono.
Como explicar e chegar lá? Porque nunca acontece? Sempre faltam alguns dedos, sempre falta um pouquinho. Estou quase sendo promovido. Mas minha namorada é tão estável. Mas, bem, agora que está dando certo? Quando eu terminar a faculdade... Quando eu tiver uma casa. Mas uma casa bonita. Mas uma casa bonita, com carro, casa.... O pecado original.
A sensação de sermos todos Tio Patinhas, que nada e se esbalda na fortuna da vida sem correr riscos, mesmo correndo. Essa é a dor, sabemos que talvez uma brochada do chefe me custe o emprego. Talvez o sol espirre e avarie alguns satélites. Talvez o aquecimento global esteja perto demais.
Esse meio, esse é o buraco negro. E como esse lugar diz sobre nós. Ai de nós, todos têm esse buraco. Tudo faz sentido. Ou nada faz sentido.