Veda Vitão

Néctar escondido

Estou há um tempão tentando escrever sobre o Bhajan "Kali Kukkura". Uma música muito, muito linda que costumávamos cantar no monastério todos os dias de manhã, mas depois mudamos o repertório e paramos de cantar. Mas sempre que eu tento abordar o assunto em texto eu percebo que não é algo acessível a todo mundo. Ou melhor, é muito pouco acessível, apesar de estar aí, publicamente exposto, mas só uma vivência do universo te faz entender.

Nessa minha jornada de abordar as poesias da música, tentei fazer tradução, mas ficou chato. Tentei explicar e foi quando eu percebi a diferença.

O Bhajan glorifica o "Filho da Mãe Sati" que é um avatar específico de Krishna como "aquele que nos protege dos medos e hipocrisias da era de Kali". Mas até aí beleza, dá para entender um pouco. Mas para glorificar Mahaprabhu, o filho de Sati, ele fala "gadādhara-mādana", que em tradução livre quer dizer "Ele (o filho da Mãe Sati) enlouqueceu Gadhadara (uma pessoa)". Você pode até saber sânscrito, pode até entender o que está escrito, mas para ver a beleza disso você precisa estar imerso na cultura.

Imagina, todos os dias nós vemos Deus nas coisas, nos objetos, nas pessoas, mas de fato nós não enxergamos Deus, enxergamos objetos, pessoas e as sensações que isso nos causa. Quando Deus apareceu como o Filho de Mãe Sati, Ele mesmo apareceu nesta terra como eu e você. Ele (Deus) convivia com as pessoas e, apesar de todos acharem ele lindo e encantador, não é todo mundo que via Deus mesmo, somente quem tem a pureza de coração via Deus mesmo.

E quando Ele resolve vir, vêm muitas almas atrás dele. Uma das características de Deus é "Aquele que vem com uma comitiva", ou seja, quando ele aparece, muitas Almas importantes aparecem junto. E Ele, o filho de Mãe Sati, que é Krishna mesmo, aparecendo de forma diferente, tem sua consorte a Radha, a contraparte feminina de Deus. Tudo isso para começar a explicar o que significa "gadādhara-mādana", já passamos da metade.

Bem, Krishna vindo como o Filho da Mãe Sati, ele veio para viver como um devoto. Ele teve vida familiar até os 17 anos, eu acho, e depois tomou voto de renúncia e viveu peregrinando por aí. Em outra parte desse mesmo Bhajan ele glorifica Deus como "gṛhijana-śikṣaka, nyāsikula-nāyaka". Aquele que instrui quem está em vida familiar, mas ao mesmo tempo é a maior inspiração dos renunciantes. Mas voltamos à loucura de Gadhadara.

Sendo ele um devoto a maior parte de sua vida, Radha, sua consorte, queria vir com ele, mas não podia vir como esposa, mulher... porque ele iria renunciar, ela já sabia. Então ela veio como Gadhadara, um homem renunciante, para poder ficar próximo e viajar junto do seu amado.

Então quando ele diz "gadādhara-mādana". Ele está se referindo ao êxtase transcendental de união da dualidade entre partes masculinas e femininas para se tornar Uno com o Todo. E não em como enlouquecer com isso aos olhos materiais. O Samadhi Supremo, a união de Radha Krishna.

O néctar escondido em duas palavras no meio de um contexto. Bem, a música diz, se você quer fugir do Cão de Kali, desta era de medo e hipocrisia, basta cantar os nomes do filho da mãe sati, aquele que enlouquece Gadhadara, que instrui as famílias e inspira os renunciantes.

para escutar por si mesmo: https://www.youtube.com/watch?v=mvM3tcH0S9A&list=RDmvM3tcH0S9A&start_radio=1&pp=ygUMa2FsaSBrdWtrdXJhoAcB