Veda Vitão

Pistola

Eu sinto raiva, eu fico nervoso, tenho pouca paciência na minha vida. Não em todos os âmbitos, mas em coisas específicas. Por exemplo, ingratidão me deixa puto, eu perco as minhas faculdades mentais e só consigo odiar, sentir nojo, asco. É muito louco porque é mais forte que eu. As vezes eu até percebo a coisa vindo, mas eu tenho bons argumentos para me enfurecer. Eu adoraria falar "não que eu goste" porque tem um sabor essa raiva, mas eu queria não sentir esse sabor, não gostar disso. Queria realmente achar errado, mas em comparação com a ingratidão eu acho válido e eu acho que esse é o problema.

Outra coisa é ser obrigado a me sujeitar ao ego de alguém sem relação com a realidade. Ter que escutar alguém falar de si mesmo como se fosse algo importante. Ou escutar algum sujeito que acha que sabe cantar, cantar mal. Ter que obedecer a autoridade de alguém que não sabe o que está fazendo. É mais forte do que meu bom senso e eu fico muito puto. Sabendo disso eu evito tudo isso, mas evitar não é lidar bem, evitar é evitar.

Tem um belo verso em sânscrito que diz "atravesse a ponte da fúria com a ausência da fúria". E realmente essa é a formula, mas é uma ponte difícil de ser atravessada, mas é o único caminho, me ausentar dela, vir ela vindo e só assistir. Eu consigo fazer isso com alguns outros sentimentos ruins que brotam no coração, mas a raiva o ódio é meu ponto fraco.

Quem vê de fora não acredita, mas eu evito, evito o máximo essas situações. Eu evito conviver com pessoas que tem características que me dão a faísca para a explosão do ódio, evito situações. Aprendi ser educado e falar "obrigado", "por favor", "desculpa, eu errei". Falo mesmo, para evitar problemas, mas é impossível. A raiva existe aqui dentro e ela acende.

Eu oro para melhorar. Eu queria não me identificar com ela, mas me identifico. As vezes eu acho até útil. Óbvio que muitas vezes eu culpo tudo menos eu. Porque eu realmente acho que um ser ingrato precisa escutar poucas (ou muitas) e boas (ou ótimas mua-ha-ha-ha). Ou um péssimo cantor não deva ter público. Ou alguém folgado ser abandonado. Eu realmente acho isso, e eu culpo a mundo por deixar somente eu reclamar. Eu as vezes rezo para que existam outras pessoas com raiva para equilibrar, não repousar somente em mim essa vontade de expor o que todo mundo finge não ver. Mas eu sinto, sinto mesmo!

E em minha defesa, no mesmo grau que eu sinto ódio eu também me dedico aquilo que eu acredito, as vezes eu tbm uso essa desculpa de ter um amplo espectro. Ao mesmo tempo que eu odeio fora do normal eu me dedico, me doo fora do normal. Aqueles (poucos) que eu tenho admiração, amizade, carinho. Aqueles que realmente precisam, eu uso toda essa energia odiosa de uma forma melhor. Sirvo, faço. As vezes tiro de mim para dar, as vezes sem limites também. Mas no fundo eu sei que isso é desculpa, isso é tentar justificar minha raiva.

Mas eu sinto raiva. Tenho prazer na fúria. Infelizmente.