Veda Vitão
Porque voltei ?
Pra isso é necessario entender o porque eu fui. Assim, acho que essa é a coisa mais complicada de explicar, porque a equação só faz sentido se olhado por uma perspectiva especifica.
Tipo, minha relação com a religiosidade é a seguinte: Um momento da minha vida eu "travei" e eu conseguia existir no sentido de ter empregos, tomar banho e cumprir meu papel para sustentar uma existência minimamente normal, mas internamente toda minha energia estava voltada para solucionar um dilema:
O que é a vida? O que eu to fazendo aqui ? como isso tudo funciona.
Eu quero enfatizar a dramaticidade de ter um dilema que ocupa praticamente sua vida. Tipo, não era jogo, mulher, comida. Eu lia, estudava, pesquisava, visitava coisas que talvez pudessem ter uma resposta, uma direção para solucionar o dilema.
Ai eu li o Bhagavad Gita, vi que desde tempos imemoráveis as pessoas sofrem com o mesmo dilema que eu, e nesse momento minha jornada por esse mundo indiano/védico começou. Imagina, são tipo 17 anos de busca, estudo e pesquisa sobre o que é a realidade. Ai cara, eu achei meu Guru, aceitei enxergar a realidade por um viés, por ter fé neste viés (mesmo entendendo que a realidade é infinita e abstrata, é necessário um viés para enxergar o invisível, como olhar um espelho transparente em certo angulo você consegue ver a reflexão). Aqui essa palavra é muito importante: Fé! Não a palavra que, com respeito, algumas pessoas andam no boné, colocam nas redes sociais ou a fé do dia a dia. Mas fé no sentido real da palavra, o sentimento humano que torna possível o finito conceber o infinito. Com fé você compreender a realidade última. Eu acho que este tipo de fé é inconcebível caso não seja vista ou experiênciada. Sabe aquilo que fez Jesus não afundar na água, que fez ele saber que seria traído e ainda assim aceitou seu destino, não como um covarde que não luta, mas como um sábio, um homem de fé. Esse tipo de fé eu to falando. Não a fé que tem um pé na segurança material, é mergulhar no escuro. Vou contar uma historia, mas vou encurtar muito.
Um rapaz qualquer conheceu um mestre espiritual e queria aceita-lo gomo Guru, mas o cara recusou. ele descobriu que ele morava numa caverna nas himalaias. O rapaz escalou lá e falou - Só saio daqui depois de iniciado. O guru disse - Só pulando da montanha!. E o cara pulou.O mestre mandou os discípulos buscarem o corpo, reviveu e o aceitou como discípulo. É isso, nascer para uma nova vida. Você ta preparado ? Pularia da montanha ? Desistiria por completo de quem você é? Virgulas a parte, voltamos
E eu realmente aceito que a melhor e mais eficiente trilha para lidar de uma forma muito realista com o sofrimento inerente da existência material é o monastério, mas é muito muito complexa essa solução. Ela não é a solução natural, ela é a solução para quem está pegando fogo. Viver uma vida espiritual é o processo de despir-se da matéria e se vestir de fé, é um processo majoritariamente de perdas e destruições de tudo aquilo que se considera seguro e confiável, como perder um ente querido e muito próximo constantemente. Mas ela funciona se você tem algum senso de urgência, ao mesmo tempo que segura a ansiedade. Sim parecem coisas contraditórias, mas não é. Ter pressa é diferente de não perder tempo.
Agora imagina você contemplando a queda vertiginosa de tudo aquilo que você demorou quase 40 anos pra construir. Por esses 15 anos de processo consciente vamos dizer assim, muita coisa já se foi, já tem um costume a ta coisa. Mas ir no monastério é como colocar esteroides nesse processo. Empacotar o sofrimento de várias e várias vidas em curto espaço de tempo, num só gole deveras saboroso.
Esse processo monástico é um processo de vidas, várias vidas. Vivendo lá é meio claro ver a aderência e a dificuldade das pessoas que passam. Como são vidas, as vezes temos doses homeopáticas de destruição, as vezes doses cavalares sem anestesia. As vezes precisamos aceitar a derrota e voltar para lamber a ferida, se curar, e ir uma vez mais com mais explosivos, até o processo ser menos doloroso. Isso pode demorar o quanto precisar. O tempo não importa nessa equação, todos em certo sentido estamos no mesmo processo, alguns só não sabem e sofrem gratuitamente, outros entendem o processo e atuam na medida do possível para favorecer-lo.
E assim segue a vida. Mas o que eu vou te falar é o que mudou a perspectiva da minha vida, quando eu me questionei profundamente:
Como as seres conseguem viver e tomar decisões sem se preocupar de fato com qual jogo estão jogando? Existem dois jogos a serem jogados: Quando você entende e treina como manual; Outro é apostando.
Óbvio que na complexidade humana, exite muito que se faz intuitivamente pelo entendimento abstrato e subjetivo da vida, mas não estamos falando da ação em si (Salvar alguém sem intenção tem o mesmo valor de fazer um esforço deliberado para tal?). Por isso estamos falando da consciência. Quão consciente você é em compreender o que está acontecendo, o que é a vida e como funciona este processo ?
Basta assinar o plano light e ler o Bhagavad Gita que você alcança a perfeição prometida. Claro que não, são vidas de dedicação e desenvolvimento de fé, e aí talvez despertar algum interesse genuíno sem uma relação comercial de troca e simplesmente se entregar ao processo, se tornar o processo.
No final, de dentro nós traduzimos toda essa questão para "como viver sem um Guru". Mas acho esse aforismo complexo de compreender visto de fora