Veda Vitão

Quando eu fui quase famoso

Lá vem história. Quando vivi no monastério, era um lugar muito rudimentar. Fica nas serras de minas gerais, um inverno muito muito frio e tomávamos banho frio na madrugada, por volta das 3h da manhã. Lugar realmente de prática, meditação. Zero conforto. Assim como o lugar nós éramos rudimentares, mas assim como a prática espiritual que parece dura mas te cura, assim éramos nós. Muita piada, deboche e desprezo do mundo material mas muito aconchego humano, espiritual, compaixão. Qualquer um que precisava de um lugar era bem recebido e não precisava seguir nossa rotina maluca. Bem único era a fazenda.

Com este humor curioso muita gente ficava queimada conosco, nós achando sem coração, grosseiros. Achavam que fazíamos maldade em falar as coisas, tinham muita fama de queimar os aspirantes a devotos. Raramente alguém vinha aqui por muito tempo e saía sem nenhuma questão conosco.

Neste ambiente morava 1 mestre espiritual, 10 monges e 1 monja. E sempre tinham simpatizantes, curiosos e viajantes por aqui. Um dia tinha uma voluntária que dava aulas de yoga, e essas aulas de yoga eram feitas no quarto masculino, que era o lugar onde também todos comíamos juntos, como se fosse um centro de convivência em horas determinadas, nos outros momentos era nosso quarto. E essa moça do yoga também era artista e nosso Mestre espiritual pediu para ela pintar um desenho no lugar onde tinha yoga para inspirar as pessoas. E pasmem, ela decidiu desenhar uma mulher nua fazendo yoga e com as vergonhas escondidas com uma folha. Até hoje eu não entendo como alguém tem a ideia de desenhar uma mulher nua no quarto de 11 monges celibatários de 20 poucos anos lutando contra a sexualidade natural. Foi uma loucura, debochamos demais, e eu falei com nosso mestre espiritual:

Rimos muito da situação, com o tempo apagamos o desenho, Maharaj com todo tado conversou com ela e ela entendeu e deu tudo certo. Ela acabou até se casando com um devoto, se iniciou e tudo mais.

Ai eu vou embora da fazenda, também me caso, separo, vivo minha vida, me desconecto do monastério e tudo mais. Ai mais de 11 anos depois eu volto aqui e descubro que isso virou um jargão da fazenda e todo mundo aqui me conhece por causa dessa frase.

Pessoas que eu nunca vi na vida falam "você que é o Premaphala que falou vai queimar de qualquer jeito".

Com certeza foi uma das melhores coisas que eu fiz na vida, me tornar famoso em um local sagrado de prática espiritual. De todo mundo que morou comigo na fazenda, 11 anos depois ainda mora nosso mestre espiritual e 1 dos monges de casou e construiu uma casa aqui, de resto todo mundo é novo, mas todos falam "ah, vai queimar de qualquer jeito". Mesmo agora tendo banho quente, frutas, famílias, crianças morando ao redor do monastério, nós ainda somos famosos por queimar as pessoas.

Tem mais duas histórias que me deixou ainda mais famoso aqui, mas eu conto numa próxima