Bruna Sofistinha
Conto 03
Passei o dia inteiro comandando a mesa. Argumentos afiados, cabeça erguida, o figurino impecável da mulher que não precisa de nada, que paga a própria conta e constrói o próprio império. Elas chamam isso de libertação de cartilha, e eu finjo que me contento com o troféu.
Mas quando a porta do apartamento fecha, a armadura do empoderamento cai no chão junto com o salto alto. Que tédio mortal seria ter que mandar o tempo todo.
As feministas de plenário que me perdoem, mas a minha maior transgressão não é subir no pódio; é ter o poder absoluto e me dar ao luxo, por mero capricho, de entregar a chave do reino. Ajoelhar, ser mandada, virar brinquedo nas mãos de quem tem audácia suficiente para me segurar pelo pescoço.
Existe um descanso divino em deixar de ser a rainha para virar a caça. Não por fraqueza — a fraqueza obedece porque não tem escolha. Eu obedeço porque sou tão dona da minha existência que posso brincar de ser serva. A submissão só é verdadeiramente erótica quando é um ato de soberania.
Ele acha que me domina com a força dele. Mal sabe ele que é a minha permissão que o faz rei. Eu me entrego inteira, me desfaço, peço por favor, só pelo prazer secreto de saber que quem financia o espetáculo da autoridade dele sou eu.