Bruna Sofistinha
SAC dos Apaixonados 2
Bruna, pelo amor de Deus, me acuda. O modelo que vocês me entregaram é um eunuco de terno e gravata, um rapaz de uma doçura tão abjeta, tão perversa de tão educada, que está me fazendo ter saudades dos canalhas da Zona Norte.
Aonde foi parar o macho de verdade, Bruna? O homem com hálito de obsessão, que olha pra uma mulher não como quem pede licença na fila do banco, mas como quem vai cometer um crime passional? Eu contratei esse serviço esperando a vida como ela é, mas me entregaram uma assembleia do sindicato das boas intenções.
É uma humilhação diária. O sujeito me pede autorização para absolutamente tudo. "Posso te dar um beijo?", "Você prefere que eu vá mais para a esquerda?", "O barulho da minha respiração te incomoda?". É de uma covardia lírica! Ele trata o meu corpo com o melindro de quem manuseia uma imagem de gesso de Nossa Senhora. Mas eu não sou de gesso, Bruna, eu sou de carne, sangue e virtudes duvidosas! Eu não quero um cavalheiro respeitoso que me peça três autorizações reconhecidas em cartório antes de me encostar na parede; eu quero o homem que me devore com o desespero e a fúria de um condenado à morte diante da última refeição.
E não me venham os idiotas da objetividade dizer que sou uma mulher contraditória. Eu sou a mulher moderna, sim! Trabalho, ganho meu dinheiro, humilho executivos de sapatênis em reuniões de diretoria, decido o destino da minha vida e me orgulho do meu trono. Sou dona absoluta do meu destino. Mas é exatamente por ser a dona de tudo que eu exijo o luxo supremo de, entre quatro paredes, ser despojada de qualquer poder. A verdadeira tragédia da mulher emancipada é não encontrar um homem que tenha a hombridade de subjugá-la.
Eu quero ter a liberdade de escolher ser dominada por um bicho. Quero o sujeito que chega sem avisar, pega pelo pulso, decide o vinho, decide a noite e me faz esquecer que o mundo existe fora daquele quarto. Eu quero a violência santa do desejo, aquela coisa ancestral que faz a espinha tremer e a alma pedir perdão a Deus no dia seguinte.
Mas o meu modelo atual... ah, o meu modelo atual se ajoelha não pra me venerar como o monstro sagrado que eu sou, mas pra pedir desculpas por existir. Se eu continuar com esse rapaz mais um mês, vou acabar virando freira por tédio ou comendo sabão de desespero.
Vocês têm como recalibrar esse software? Dá pra injetar um pouco de lama, de audácia, de pulso e de masculinidade incisiva nesse peito? Eu não quero um escroto, Bruna. Eu quero um homem que tenha a coragem de me olhar nos olhos e provar que, no tribunal do desejo, quem manda é a fome dele — e a minha vontade soberana de ser devorada.
Responde rápido antes que eu me atire da janela da sociedade moderna.
Obrigada, Bruna.